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“Quando eu ensinava inglês há uns dez anos, fui expulso do instituto pois um dia, em vez de aula, pedi em plena classe que cada aluno fizesse ali na sala o que bem quisesse fazer. Pra minha alegria vi setenta alunos deuses sendo cada um o que eles eram: uma jornalista com batom vermelho-escuro pintou todas as paredes com desenhos tão bonitos, ela gostava de pintar; um garotinho tira uma gaita do bolso e começa a tocar enquanto um outro , em pé , recita pregando o que é egoísta. Uma senhora tira a roupa e fica nua em pêlo em cima da carteira que eu me sento gritando que o clima da Bahia não comporta rouparias. Disse ela: 'Alguém espalhou um boato que o corpo humano, que a natureza fez igual pra todos , era pecado e ninguém podia ver'.Um outro aluno era um padre respeitado , cheio de pano todo abotoado, levantou-se e foi ao quadro escrever sua confissão: 'Eu , padre fulano, aqui confesso sem enganos que ninguém é pecador! De hoje em diante vou ser um mercenário procurando mundo afora o inventor-impostor que o pecado inventou'.
Eram setenta alunos, velhos, moços e crianças numa aula de inglês. Eu sentado observando que também me traía a fazer o que não queria, pois o que eu queria mesmo era compor e cantar o que sentia. Rock and Roll e Twist and Shout. Nisto dona Angelina, que era bancária, me deu uma surpresa retada quando fez o que gostava, que era fabricar granada para soltar em São João, me apareceu o diretor. Vendo a sala louca o diretor abriu a boca, pois não entendeu aquela aula, e nos deu a maior lição expulsando eu e todos os ex-alunos do inútil. Hoje o diretor ainda tá lá no instituto dirigindo e dirigido.
O rapaz da gaita toca blues numa boate duma rua em New Orleans, enquanto a jornalista expõe seus quadros surrealistas no Museu de Imagem e Tom. O padre achou num livro o autor do tal 'pecado' e agora escreve e é bem lido, o best-seller mais vendido. A sua tese explica que 'pecado' foi só um mal-entendido. Dona Angelina, ex-bancária da esquina, tá numa fábrica de minas do governo dos States e fabrica suas granadas hoje já atomizadas.
Eu, que vocês sabem, tô cantando o que penso sem patrão, sem dono ou rei vou fazendo o que eu quero porque tudo é da minha lei. Sou o que canto e minha voz não fica rouca. Já fui a mosca na sopa, metarmofose ambulante, trasformo em ouro de tolo em ouro puro em um instante e Al Capone é meu ajudante. No meu signo de câncer eu tenho a cor do luar, sou também a luz das estrelas, óculos escuros guardam meus olhos seguros que os ladrões querem roubar pensando tolamente que olhando com meus olhos vão ver o mesmo que eu.
A moral da história é que não é uma história, nem sequer tem moral, pois o novo e sempre velho pra quem vê com olho de velho, que o velho olha sem saber a explicação."